Rival Women’s Cup:
tudo sobre as primeiras vencedoras

Fakezão vence a primeira edição do campeonato e compartilha sua experiência no cenário competitivo

02/10/2020 – Por Priscila Augusto

O cenário competitivo de Valorant ainda é novo, e o Rivals Women’s Cup foi um dos primeiros campeonatos do jogo voltados para as mulheres. Por isso, decidimos conversar com as vencedoras do primeiro evento, integrantes do então Fakezão, para elas nos contar um pouco de suas experiências de vida, dessa nova vivência que tiveram no Valorant e quais são suas expectativas para o futuro. Vem com a gente!

Sobre o Rivals Women’s Cup – 1ª edição

Em julho deste ano, durante os dias 4 e 19 de julho, ocorreu o Rivals Women’s Cup, um campeonato de Valorant organizado pela própria Rivals, voltado para as meninas. Garotas de diferentes lugares da América Latina, como Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e México, participaram para concorrer ao prêmio de 1 mil reais e a uma vaga ao Rivals Major League.

O torneio foi o primeiro oficial da organização depois da promoção da sua competição Beta e tinha como objetivo ser o maior campeonato feminino de Valorant do Brasil. E ele de fato foi – o total foi de 34 times participantes. O número é surpreendente, já que na liga para mulheres da Gamers Club de Counter Strike: Global Offensive, o máximo de equipes inscritas foi 17.

 A competição se deu por meio de MD1, sendo assim eliminatória até a final, que teve o formato de MD3. Depois de quatro jogos, o Fakezão garantiu sua vitória definitiva no quinto contra a ValorAntas, composto por jogadoras profissionais de CS:GO. O placar final foi 2-0, com partidas nos mapas Split (13-10) e no Bind (13-6). 

Conheça as players!

Nome: Paola Caroline
Nick: drn
Idade: 22 anos
Time: Metagaming
Experiências:
– Ganhou 4x a liga feminina de PB
– Ganhou a seletiva para disputar o mundial feminino (PBIWC) na Indonésia
– 3º e 4º lugar na seletiva para o Mundial PBWC, em um time com mais 4 garotos, sendo a primeira garota a passar pra fase presencial de campeonato oficial misto*
– Fiquei em 4º lugar na Liga Elite (Liga principal) de PB com o mesmo time de 4 garotos

Redes sociais: 📸 @drnpaola 🐦 @drnpaola

Nome: Ana Beatriz Araujo Gomes
Nick: Naxy
Idade: 21 anos
Time: Metagaming
Experiências:

Em Valorant: 
1st – Rivals Women’s Cup (Naxy, DRN, Tayhuhu, Celinett, Isa)
1st – Ascent Women’s Cup (Naxy, DRN, Tayhuhu, Celinett, Nanah)

Em Fortnite:
4th/100 — Squads Fncs Week 3 (Naxy, Blackoutz, Master, Drakonz)
11th/100 — Squads Fncs Week 2 (Naxy, Blackoutz, Master, Drakonz)
52th/200 — Winter Royale Session 2
200th/500 — Winter Royale Session 3
70th/500 — Trio Week 2

Em Zula:
1º lugar — 1º ShowMatch feminino da ZPL (Naxy, Sthee, Rainha, SraaConnor, Lady)
1º lugar — 2º ShowMatch feminino da ZPL (Naxy, Sthee, Rainha, SraaConnor, Lady)

Redes sociais: 📸 @naxysz 🐦@naxysz

Nome: Celine Borges
Nick: celinett
Idade: 21 anos
Time: INTZ
Experiências:
– 3x Campeã Brasileira de PB
– Vice-campeã Mundial de PB
– 1º lugar no Girl Power, por Gaming Culture

Redes sociais: 📸 @celinettpb 🐦 @celinettpb

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Nome: Taynah Yukimi
Nick: tayhuhu
Idade: 21 anos
Time: INTZ
Experiências:
– Vencedora da Liga Tarântula de PB
– Ganhadora de algumas Liga Viper de PB, inclusive da última que foi presencial
– Experiência da Liga Elite de PB
– Já participou dos times Reaction Esports, Tshow Esports, Liga Uncharted, VTI Esports (atual New Eagles)
– 1º lugar no Girl Power, por Gaming Culture

Redes sociais: 📸 @tayhuhu 🐦 @tayhuhu_

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Onde tudo começou

A história dessas meninas começou muito antes do Valorant. Todas elas se conheceram por causa de um jogo chamado Point Blank, um FPS em MMO, mas nem sempre estiveram juntas. “Eu lembro que eu entrei no competitivo de PB um pouco depois, acho que a DRN joga desde os 12 anos dela. Eu jogava outro jogos um pouquinho antes”, contou Tay. “Mas quando eu cheguei, eu descobri ali que existia competitivo, porque até então eu só jogava pelo role-play”. 

Ela então entrou num time, o que mesmo em que a DRN jogava. “A DRN era tipo, a garota do cenário. Vou ser sincera, ela sempre deu muita bala e nos vídeos, a galera mostrava highlight dela, o jeito que ela se portava… Ela é quietinha, ela é fria, mas ela é fria e calculista entende?! A mina é muito boa! (risos). Juro, eu tive uma admiração muito grande [por ela]”. 

A Tay revelou que, no começo, se sentiu insegura, envergonhada e com medo de mostrar seu potencial, só que foi tão bem abraçada, que logo ficou à vontade. “E aí foi indo, essa loucura. Num momento eu pensei: ‘ah, vou tentar montar um time, virar uma capitã’, aí eu chamei a DRN, umas amigas e tudo o mais.” Foram vários campeonatos e, eventualmente, as meninas jogaram contra a Celine. “E tava lá a Celine jogando direitinho contra a gente. Ela jogou muito bem, sabe?! E eu lembro que eu falei: ‘Eu vou chamar essa garota, vamos ver o que vai acontecer’”. 

A Celine começou a jogar Point Blank um pouco depois que as duas, uns dois anos. Ela disse que se sentia “desfavorecida”, porque ali já tinham as melhores meninas, o melhor time, mas que isso não a abalou. Depois de aceitar o convite da Tay, a Celine começou a se inspirar nas suas parceiras de time para melhorar seu desempenho. “Eu fui comendo feijão, falo assim porque eu fui treinando, jogando muito Mata-Mata, vendo campeonatos… Fui tentando o máximo suprir o time e agregar, sabe?! É meio que um pouco da minha personalidade mesmo, eu sou uma pessoa dedicada”. 

No cenário de PB, a Naxy não jogou com as meninas, apenas contra. “A Celine, no PB, eu nunca falei muito, nem a DRN. Com a Tay, eu já cheguei a conversar um pouco. (…) São meninas que eu acabei admirando sem falar, só de conhecer e ver como elas agem, como elas jogam”. Foi então que o Valorant surgiu, e a Naxy decidiu chamá-las para um time. “O primeiro dia que joguei com elas, já fiquei confortável e já falei: ‘Pô, são meninas que eu quero ser amiga e quero ficar do lado’”. 

Desempenho no campeonato

“Eu vou ser bem sincera, todo mundo sabia que a gente ia chegar muito longe”, contou a Celine. “A gente tem muita confiança, muita experiência… Pra gente não existe isso de ficar nervosa em campeonato, o que a gente faz num campeonato é o que a gente faz em uma ranked. A gente jogou presencial, e isso te dá muita base, muito preparo, muito psicológico”.

Mas claro que habilidade também era necessária – e era o que o Fakezão tinha. “A Celine, eu e a DRN, a gente veio do PB e tinha um histórico muito bom. Então, acho que isso ajudou muito na nossa confiança pros próximos campeonatos”, disse a Tay. A Naxy, que já tinha jogado muito Valorant e treinado com jogadores muito bons do cenário, aumentou ainda mais o potencial delas. “Ela [a Naxy], no primeiro dia que a gente foi fechar um mapa pra decidir algumas coisas, ela super passou tudo que ela sabia pra gente e isso deu tipo uma confiança enorme”, complementou.

Como esse era um campeonato de estreia, o número de times amadores, ou seja, não profissionais, com pouca vivência, era grande. “As meninas que mais eram ‘dificuldade’ foram justamente as meninas que já tinham uma bagagem muito grande de CS, que chegaram na final contra a gente. As meninas já tem uma carga muito grande de outros jogos e de campeonatos”, explicou a Naxy.

Apesar da prática ser a chave para o sucesso, a DRN, Tay, Celine e Naxy treinaram pouco, porque sua rotina era corrida. “A gente fechou mapa em 1 semana e jogou ranked 1 semana. Não foi o dia inteiro, não passou nem de três horas”, relatou a Naxy. Ela explicou que não elaboraram nenhum tático muito pesado porque queriam se sentir confortáveis, definiram os seus campeões e colocaram em prática tudo aquilo que já haviam aprendido ao longo dos anos.

A importância do cenário feminino

As quatro meninas foram criadas em um ninho, o cenário competitivo feminino, e foi isso que as moldou como players. Sem essa oportunidade, elas não teriam conseguido se desenvolver, se acostumar com a pressão de jogar campeonatos, sem afetar seu psicológico intensivamente – segundo elas, jogar com e contra homens é um pouco mais complicado. “A diferença entre você jogar em um time misto e um campeonato misto em um time feminino é muito grande”, conta a DRN. “É isso que a Naxy fala, de você ter que se provar o tempo todo”. A Celine também se pronunciou sobre o assunto: “Você não sabe o que é ter que se provar quatro, cinco vezes ou mais pra você conseguir alguma coisa ou ser respeitada”.

A Naxy, inclusive, citou algumas situações problemáticas envolvendo a relação de mulheres e homens nos eSports. “Magina, você querer treinar, aumentar seu nível jogando com times bons e eles não quererem treinarem com vocês porque vocês não são um time bom o suficiente pra treinar com eles”. Ela destaca que ninguém é obrigado a jogar contra o outro, mas que o mínimo é times masculinos treinarem com seriedade quando jogarem contra meninas, não as subestimando. A Tay e a DRN citaram dois eventos discutíveis que aconteceram com elas quando jogavam Point Blank – “times que a gente ganhou se desfizeram por se acharem ruins porque perderam pra gente” e “quantos treinos a gente não tava lá, treinando na moral, dando a vida no treino, fazendo tudo o que a gente podia, e o treino miava no meio porque os moleques tavam perdendo muito round seguido”. 

Existe, ainda, a questão da parabenização por um bom desempenho que vem acompanhada de uma crítica. “Nossa, pra uma menina você joga muito”, “nossa, uma menina jogando desse jeito, que difícil”… Pô, mano, que chato de escutar. Quer elogiar, elogia só a gameplay”, contestou a Naxy. Ter reconhecimento é bom? Sim, mas não basta.  A Tay afirmou: “A gente quer treinar contra eles, a gente quer ser visivelmente igual”. As garotas querem ser vistas como jogadoras, não como meninas que jogam. 

Priorizar a participação no cenário feminino não é, então, acomodação. “Eu acho que você utilizar isso de ficar acomodada como algo negativo é um desserviço pro feminismo, porque primeiro que é óbvio – por que a pessoa vai sacrificar a saúde mental dela, a sanidade, o bem estar dela pra estar jogando num cenário desconfortável que é o misto, entendeu?!”, ressaltou a Celine. As mulheres não vão deixar de competir o misto, mas é necessário que as pessoas trabalhem para que ele melhore. “Em ranked, ainda não tem uma menina que não reclamou de algum problema, você vê que em campeonato a gente que jogou, por mais que a gente ganhasse, os caras, em vez de falar que a gente jogou bem, disseram que os outros que estavam jogando muito mal, só pra falar que a gente não jogou bem”, esclareceu a Naxy. 

Para isso, as meninas do Fakezão concordam que é necessário uma parceria entre os players, desenvolvedoras e influenciadores. A Celine foi bem clara em relação a isso:

“As que estiverem mais preparadas ou as que estiverem se sentindo mais preparadas, que comecem a buscar o cenário masculino, misto, que é o que elas já vem fazendo. (…) Você, como influenciador, tem o poder de mudar um pouco o que a galera pensa. Então, se cada um fizer sua parte, vocês conseguem sim transformar o cenário em algo mais confortável pra gente, e não usar isso de que a gente que precisa buscar mais o cenário misto, sendo que ainda é um caminho de espinhos.”

Já sobre o papel das empresas criadoras do jogo, a Celine apontou que o Valorant tem o potencial de ter milhares de meninas jogando e que transformar isso em algo bom depende do investimento da Riot. “O LoL já tem essas meninas jogando, mas o que a Riot fez com isso? Nada. Ela sabia que tinha meninas ali, que queriam tentar o competitivo, mas não fez nada sobre isso. A questão que fica com o Valorant então é: será que a Riot também vai ignorar esse potencial gigante ou ela vai fazer alguma coisa sobre isso? Ela tem a faca e queijo na mão pra ela fazer a comunidade de games feminina ser gigante e fazer algo muito relevante pro feminismo em si”. 

O futuro

Participar do Rivals Women’s Cup foi uma forma das meninas do Fakezão se inserirem na comunidade de Valorant e terem uma ideia de como as meninas estavam jogando. Para a Rivals Major League, um campeonato misto que participarão ainda neste ano, as suas expectativas não são tão grandes. “A expectativa é: a gente vai pela experiência. E somos gratas a Rivals por dar essa oportunidade de conseguir jogar contra esses times até porque a gente nem treina, então não teria nem como a gente trocar tiro com esses caras extremamente bons. E vamos ver no que vai dar”, contou a Celine.

Ao contrário das garotas, já existem times que são profissionais e contam com um apoio maior, inclusive financeiro. O fator monetário influencia bastante porque as meninas não podem dedicar 100% do seu tempo a algo não remunerado, o que consequentemente atrapalha no seu desenvolvimento. “A gente [eu e a Tay] tem uma paixão enorme por competir, uma paixão muito grande, só que a gente meio que precisou buscar outros meios pra conseguir viver disso, que no caso é ser streamer”, explicou a Celine. Ambas amam streamar, mas foi um caminho que elas escolheram porque era uma forma de elas viverem do jogo. “Eu preciso sustentar minha família e tudo o mais, e tipo, só jogar o competitivo, esperando que algum dia isso dê certo pra mim, é um pouco difícil”, disse a Tay. 

Ainda assim, o sonho de virar profissional é real para todas. A Naxy vive para competir: “Claro que eu tenho [essa ambição de jogar profissionalmente]. Eu amo competir, é o que eu amo fazer. Eu não consigo jogar um jogo se não for pra ser a melhor ou tentar ganhar um campeonato, é o meu jeito”. A DRN tem a mesma ambição. “A vida toda né, desde o PB, sempre foi o objetivo [virar profissional]. O cenário [de PB] era bem pequenininho, então as dificuldades eram bem grandes, mas ambição com certeza. No Valorant, é o que a gente espera. A gente se espelha muito no CS pra sonhar com um cenário de Valorant tão estável quanto”, conta. 

No primeiro campeonato feminino da Rivals, o time entrou como uma brincadeira. “A gente montou esse time aqui como um fake, o nome próprio já diz, é um fake de amigas que já jogavam PB e resolveram jogar juntas e tentar o campeonato”, explicou a Naxy. Apesar disso, competir é algo muito sério para elas – hoje, inclusive, as meninas estão atuando em organizações nacionais e internacionais.

E pra você, que pensa em jogar, as meninas têm um recado especial! Dá play!

Desejamos todo sucesso às meninas do Fakezão, que elas conquistem cada vez mais vitórias e mostrem ao mundo que nós podemos jogar bem, sim! E você, mulher que está do outro lado da tela: não tenha medo, acredite no seu potencial e venha conosco – estamos todas juntas nessa! 

Priscila Augusto


Jornalista, feminista e apaixonada por jogos. Sonho com o dia em que as mulheres tenham a mesma visibilidade e igualdade que os homens nos eSports.

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