Nem tudo são flores

21/03/2020

O mês de Março sempre foi muito especial para a Sakuras. O chamado “mês da mulher” não poderia ser menos importante para nós, que somos uma organização voltada para mulheres do meio gamer. Durante esse mês de março, fizemos inúmeros posts em nossas redes sociais falando sobre as vitórias das mulheres nos esports e comemorando nossas conquistas em meio à incansáveis lutas. Mas, como era de se esperar, nem tudo são flores.

 

O ano de 2020 começou cheio de boas notícias para o público feminino. Como se um feitiço tivesse sido lançado sobre as mulheres gamers, muitas coisas boas aconteceram concomitantemente: tivemos o anúncio de duas mulheres para fazer parte do Depois do Nexus, programa oficial da Riot Games Brasil feito para comentar a última rodada do CBLOL. Júlia “Mayumi”, selecionada pela INTZ no projeto #Invocadoras, que aconteceu ao longo do ano passado, foi escalada para jogar pelo time no primeiro split do CBLOL 2020. Dois times femininos brasileiros, a Team Innova (de League of Legends) e a equipe feminina da INTZ (de Counter Strike: Global Offensive) conquistaram a oportunidade de representar o país num campeonato internacional, sediado em Dubai, nos Emirados Árabes. Mas, como num passe de mágica, nossa bela carruagem se transformou novamente em uma simples abóbora, e observamos todos esses eventos que inicialmente se mostraram positivos, talvez não sendo tão bons assim.

 

Começando pela INTZ, Mayumi e Yatsu foram selecionadas no projeto invocadoras para passar por um treinamento e talvez compor, futuramente, a line-up da equipe para o CBLOL. Ainda em 2019, Mayumi foi escalada para jogar como suporte do time na Superliga, onde acabaram perdendo de 2 a 1 para a Uppercut Esports. No início de 2020, a equipe anunciou sua lineup pro CBLOL composta por 10 atletas, sendo um deles, Mayumi. Todas as rotas da INTZ possuíam 2 jogadores, com a exceção da midlane, que possuía apenas o jogador Envy, e a lane de suporte, que possuía 3 jogadores: Jockster, Redbert e Mayumi. Estranhou-se o fato de que não haviam colocado Yatsu, que era midlaner, como reserva para Envy, que até então seria o único naquela lane, mas foi explicado pela equipe que Yatsu “ainda não possuía nível suficiente para jogar pelo time no CBLOL”.

 

Cerca de dois meses depois do anúncio de Mayumi como reserva, a INTZ fez uma mudança na line-up: O jogador Hauz, que estava afastado por conta de uma lesão, foi anunciado como reserva da midlane, e como o regulamento do campeonato permite apenas 10 jogadores por time, Mayumi foi retirada da line-up sem ter jogado uma partida sequer. Ao serem questionados sobre a mudança, a equipe informou que “Mayumi não estava, ainda, no nível do CBLOL”, mas o público não recebeu essa justificativa de forma positiva. No final, Hauz acabou estreando no emblemático dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o que pareceu uma grande ironia do destino já que ele foi colocado na equipe no lugar que antes “pertencia” à uma mulher.

 

Letícia e Ravena foram duas surpresas agradáveis neste ano. Esperava-se que elas entrassem como casters oficiais pelos campeonatos da Riot Games (CBLoL ou Circuito Desafiante), e a expectativa por esse acontecimento aumentou assim que foram anunciadas grandes mudanças na equipe de transmissão de ambos os campeonatos. Mesmo não sendo o resultado esperado, Letícia e Ravena passaram a compor o Depois do Nexus, programa liderado por Tixinha para comentar a última rodada do CBLOL. Enquanto uma parte da comunidade comemorava a entrada de mulheres nesses cargos, outra parte questionava o mérito que havia nelas por estarem lá. Muitos disseram que as meninas faziam parte da “cota”, entre outros comentários maldosos, mas essa não foi a pior parte. Além de toda a carga de rage, as meninas também tiveram que lidar com o despreparo da Riot para lidar com mulheres em live. Inúmeros comentários machistas e de cunho assediador passam batido ao olhar dos mods constantemente no programa. Não parece haver, de fato, uma preocupação com o bem estar das meninas. Por enquanto, o programa está suspenso por conta do surto de COVID-19, mas esperamos que isso melhore quando os eventos voltarem ao normal.

 

Nesse início de ano, tivemos também representações brasileiras femininas no exterior: O time feminino de CS:GO da INTZ e a Team Innova, no LoL, conquistaram numa seletiva sul americana, a vaga para representar a região no Girl Gamer Festival, em Dubai, porém, mais uma vez o bem-estar das meninas parece não ter sido colocado como prioridade, pelo menos ingame. Os jogos atrasaram horas. Faltou infraestrutura em coisas básicas como o local onde as meninas jogaram (onde aparentemente fazia muito calor e elas eram expostas ao sol) e também em relação à jogabilidade: os times de League of Legends jogaram com, em média, 120 de ping, pois não haviam servidores do jogo próximos à região onde o campeonato ocorreu. Mesmo com todos esses contratempos, as meninas disseram que foram muito bem tratadas pela staff do campeonato, melhor até que em jogos aqui no Brasil. Além disso, ambos os times conseguiram conquistar o 3º lugar em suas respectivas competições, fato que não parece ser muito levado à sério aqui no país.

 

Todas as vezes em que se referiram à conquista das meninas, tentaram deslegitimá-las pelos problemas que ocorreram durante o campeonato, como se tivessem acontecido por conta delas, ou como se o campeonato não fosse válido por ter tantos problemas. Embora muitos não aceitem, essa é a verdade: o melhor desempenho internacional de um time de LoL brasileiro foram as meninas da Innova na Girl Gamer Festival.

 

Tomando como base esses acontecimentos, podemos ver que a comunidade está sim fazendo um esforço pra trazer mulheres para o foco dos esports. Devagar e de maneira errada, muitas vezes, mas estão. E o nosso papel como espectadores e entusiastas é observar esses erros e sugerir formas positivas de corrigi-los. Como foi dito anteriormente, nem tudo são flores, mas não é por isso que vamos deixar de plantar. O dia da mulher é um dia de luta, e mesmo que estejamos lutando, vários aspectos ainda podem mudar e melhorar, e nós temos o poder pra isso. Não podemos nos deixar abalar por comentários ou opiniões negativas, devemos usar isso como combustível para continuar seguindo em frente e lutando pelos nossos direitos e espaço.

 

Não desistam dos seus objetivos, mesmo que pareça que tudo está indo contra você, e lembre-se que você sempre terá com quem contar. Nós estamos aqui.

Feliz Dia da Mulher.

Juliana “Moondded” Alonso

Juliana Alonso, mais conhecida como Moondded, é CEO da Sakuras Esports, além de produzir conteúdo. Apaixonada por games e esports desde que se entende por gente, fala constantemente desses e outros assuntos nas suas redes sociais.

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